Amigos, comecemos esse domingo com Afonsinho. A propósito, vocês conhecem Afonsinho? Não? Pois ele foi um dos mais importantes jogadores brasileiros deste século. E não só porque jogava muita bola. Além de possuir formação superior – era médico – Afonsinho foi o primeiro jogador brasileiro a adquirir, na prática, o que os sociólogos chamam de “consciência de classe”. Aliás, consciência de classe é o que ainda anda faltando neste início de terceiro milênio à categoria dos jogadores de futebol. É por isso que os nossos craques vivem sendo manipulados por dirigentes espertos e inescrupulosos.
Pois o paulista “naturalizado” carioca, Afonsinho, que jogou no Fluminense, Botafogo, Santos e Flamengo, foi o primeiro jogador a conquistar o passe livre no Brasil tendo também fundado o primeiro sindicato da categoria dos atletas de futebol no País. Por ser “chato”, por se rebelar contra a exploração do seu trabalho por parte dos dirigentes de clubes de futebol, Afonsinho enfrentou muitas dificuldades em sua carreira. Resultou disso, no entanto, uma consciência superior do que venha ser o fenômeno do futebol para ele, para nós torcedores e para o Brasil de uma maneira geral.
É um pouco dessa sua consciência lúcida sobre o futebol que vamos encontrar, atualizada e com força mais abrangente, pouco tempo depois, num jogador como Sócrates, que infelizmente nos deixou no domingo passado. Consciência de classe, para tentar uma explicação sucinta e acessível a todos, é um conceito de sociologia política que diz respeito à compreensão que todos nós devemos ter de que a sociedade em que vivemos, é dividida, do ponto de vista econômico e social, entre aqueles que detém os meios de produzir a riqueza (seja esta material ou cultural, por exemplo) e aqueles que não os detém, possuindo apenas a força de trabalho, que, no sistema capitalista, é alugada e paga em forma de salário, para que a sociedade funcione.
Nesse sentido, o futebol pode ser entendido como uma indústria do espetáculo em que os jogadores formam a principal mão-de-obra. Os demais segmentos dessa indústria, os dirigentes, os empresários etc, formam a outra ponta do processo, isto é, o setor daqueles que pagam os trabalhadores (os jogadores) para que essa atividade econômica e de lazer funcione e dê lucros. Pouquíssimos jogadores ao longo da história do futebol, no Brasil, contudo, conseguiram entender assim a sua situação na engrenagem produtiva do mundo da bola. Afonsinho foi o primeiro e mais contundente deles, na fase moderna e comercial do futebol brasileiro. Sócrates, por seu lado, foi o mais bem preparado e politicamente ativo dessa fase; o cara que fez a ligação da sua profissão com os demais segmentos sociais, no sentido de mostrar que a atuação do trabalhador, numa sociedade qualquer, deve ir muito além da sua mera inserção no sistema produtivo.
Esclarecido, culto e com formação superior – também era formado em Medicina -, o doutor Sócrates, como era conhecido no meio da bola, foi um jogador de futebol com ampla e clara consciência de classe; um boleiro que, num dos momentos mais difíceis da vida nacional, quando a Nação ansiava por sair do sufoco imposto ao povo pela ditadura militar, colocou seu prestígio e apelo futebolístico a serviço da causa da democracia na terra tupiniquim.
Assim, mostrou ao povo em geral que o trabalhador é acima de tudo um cidadão e, nessa condição, deve ser ativamente responsável pelos rumos e destinos de todos, numa sociedade que se pretende democrática e promotora de oportunidades igualmente distribuídas a todos. Nesse âmbito político, digamos assim, Sócrates foi o nosso maior craque. No âmbito meramente futebolístico, por outro lado, sua atuação e presença também são dignas desse adjetivo consagrador. Não preciso dizer aqui da genialidade em campo do doutor Sócrates; da sua habilidade e inteligência superiores; da sua agilidade mental e domínio das variáveis do jogo. Da beleza plástica e eficiência do seu futebol. Enfim, da sua consciência de classe também coma a bola nos pés. Que fique aqui essa singela homenagem da coluna a um dos maiores jogadores de futebol que vi jogar dentro e fora dos campos do Brasil.
Coluna originalmente publicada, aos domingos, no jornal A União



