Amigos. Uma instigante palestra proferida, certa vez, pelo professor de jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo, Victor Gentille, no Departamento de Comunicação da UFPB, onde também dou minhas modestas aulas de jornalismo, me inspirou a trazer para esta coluna um aspecto do debate ali travado por alunos e professores do curso sobre as perspectivas pedagógicas do ensino de Comunicação no País. Trata-se da questão da interatividade, item obrigatório na relação do cidadão com o universo da mídia, espaço mediador definitivamente agregado às novas formas da democracia moderna.
E por que trazer para cá este tema, caro torcedor? Óbvio que única e exclusivamente por causa da sua pertinência com o universo do futebol. E onde é então que entra a pertinência do tema da interatividade com o mundo do futebol? Entra, como explicitaremos mais adiante, naquele ponto em que os meios eletrônicos de comunicação, atuais patrocinadores e até gestores dos eventos esportivos, abrem uma janela virtual para que os torcedores dêem os seus palpites, via telefone, fax e principalmente Internet, sobre os fatos diretos ou relacionados com o que eles estão mostrando em tempo real. São as chamadas enquetes interativas com as quais os torcedores, no caso do futebol, têm a sensação de estar participando diretamente de um mundo cujo acesso só lhe é possível através de bits ou pontos luminosos das telas do computador ou da TV.
Como bem ilustrou na citada palestra o professor a quem já me referi, vivemos atualmente um terceiro tipo de democracia sobre a qual vale a pena compreendermos a sua extensão histórica até o ponto em que nos situamos frente a um aparelho de TV (ou numa arquibancada de um estádio de futebol) para apreciarmos uma partida do nosso time do coração.
Analisando-se a série histórica pretérita sobre o tema, tínhamos antes do que temos hoje a chamada democracia direta. Aquela, de origem grega, em que o cidadão participava diretamente na praça pública das decisões que afetavam a sua vida prática. Chegamos depois, com a vitória do pensamento liberal conquistada com o advento da revolução francesa, a uma modalidade de democracia baseada na representatividade. Ou seja: com a impossibilidade prática de todo mundo se reunir numa praça pública para decidir no voto qual seria o seu destino social, resolveu-se que também através do voto se delegaria a outrem (o agente político mandatário) essa tarefa. Até que entramos agora, com o desenvolvimento avançado das tecnologias de comunicação, na era do que poderíamos chamar de democracia midiática (mediada pelos meios de comunicação), onde agimos politicamente com base naquilo que estes meios nos informam, uma vez que dependemos deles para tomarmos nossas decisões mais efetivas.
Toda essa argumentação meio que professoral para dizer o seguinte, nessa nossa coluna sobre futebol: quando o narrador da TV Globo, Galvão Bueno, por exemplo, pede, durante uma partida de futebol televisada ao vivo, para que o torcedor interaja com questões para os comentaristas da casa sobre o universo da transmissão, via internet, o que está em jogo ali não é a participação do torcedor enquanto cidadão. O que está em jogo ali é, sim, o aval do torcedor enquanto personagem de um show que hoje, através do recurso técnico da interatividade, coopta o cidadão com a falsa idéia de que ele participa do que vê. Na verdade, ele nem participa do que vê, nem decide o que não vê. Ele é apenas uma peça a mais no intricado jogo (esse, bem maior e mais abrangente do que aquilo que está na tela) do espetáculo midiático em que se transformou o futebol no mundo moderno: um esporte que movimenta cifras astronômicas e que integra o jogo maior da indústria do lazer no mundo capitalista. O mais é nossa paixão, e estava certo Shakspeare quando disse que o resto é silêncio.
Coluna originalmente publicada, aos domingos, no jornal A União



