Além de Luisa, que estava no Canadá, a pauta da semana passada na imprensa em geral (e na esportiva, em particular) foi a questão recorrente e já rotineira da falta de condições dos nossos principais estádios de futebol para sediarem o campeonato paraibano a cada ano. De tanto repetitiva e por revelar tanto descaso por parte das autoridades públicas que deveriam resolver a questão há tempos, eu me arvorei a escrever sobre o tema na semana passada, atacando-o de uma maneira sutil e irônica, na crônica que intitulei “Da genialidade e da burrice”.
Sem espaço para repetir, aqui, os principais argumentos sobre a postura que vem norteando a questão há muito tempo, isto é, a burrice das principais autoridades envolvidas no caso, republico, agora, apenas o trecho que para mim resume tudo, retirado de uma crônica de Nelson Rodrigues, que versava sobre estes dois atributos gerais da natureza humana, a genialidade e a burrice. Lá pelas tantas, diz ele:
“Vejam vocês: – o Sexo tem o seu Freud, a Economia tem o seu Marx. E ninguém observou o óbvio, ou seja: – que a burrice influi mais no comportamento humano do que o fator sexual, ou econômico ou outro qualquer. Daí se conclui que o gênio é um vencido e um miserando. Só o imbecil decide, só ele faz os costumes, as leis, as guerras, a moral e, numa palavra, as civilizações passadas, presentes e futuras. Ao passo que o gênio é o marginal das grandes decisões. Enquanto o gênio rosna de impotência e frustração, eis o cretino a fazer a história”.
Pois bem! Eis que abro o jornal de hoje e dou de cara com uma notícia dando conta de que a Federação Paraibana de Futebol vai reunir os principais clubes do campeonato, na próxima segunda-feira, para reavaliar a estúpida decisão tomada anteriormente de realizar o campeonato em apenas dois estádios do sertão paraibano, os únicos que estavam com a documentação de liberação em dia, segundo o estatuto do torcedor. A causa da reavaliação da decisão anunciada antes à imprensa, segundo a FPF, é o fato de que um campeonato realizado em apenas dois estádios, ambos distantes da capital e de Campina Grande (o Marizão, em Sousa, e o Perpetão, em Cajazeiras) causaria muito desgaste físico aos jogadores, prejuízos financeiros aos clubes e, pasmem, destruiria rapidamente os próprios gramados daquelas duas praças de esportes.
Eu não preciso dizer mais agora – uma vez que a burrice geral da FPF se demonstra com fatos – o quanto Nelson Rodrigues tinha razão ao afirmar que “enquanto o gênio rosna de impotência e frustração, eis o cretino a fazer a história”. É isso mesmo, amigo, a História no mais das vezes é feita pelos burros de plantão; pessoas despreparadas que, numa derrapagem e precipitação dos acontecimentos, são guinados a cargos públicos de importância sem sequer saber a relevância desses cargos para a função que ocupam. É por isso que a História tem que ser continuamente refeita e reparada. Esse caso dos estádios de futebol da Paraíba é paradigmático dessa dolorosa constatação.
Há uma outra frase de um grande jornalista que admiro muito – o gaúcho Fausto Wolf, que infelizmente já morreu – que diz o seguinte: “os generais é que fazem a História, mas são os poetas que a corrigem”. A minha coluna da semana passada (Da genialidade e da burrice ) foi escrita nesse sentido, com a pura intenção de chamar atenção para a monumental burrice que estava norteando essa questão da realização ou não do campeonato paraibano desse ano, por causa da falta de condição dos nossos estádios. Embalado pelas rimas das frases anteriores, concluo dizendo que a partir de agora não vou mais falar por alusão, parábolas ou alegorias sofisticadas sobre os burros de plantão. Quando eles cometerem lá as suas melecadas (como o fizeram na questão dos estádios), rosnarei por aqui nomeando os autores e as obras. Sei que vocês sabem o popular significado de obrar, não é mesmo?
Coluna originalmente publicada, aos domingos, no jornal A União



