Nesse período de férias do futebol paraibano em que o que rola é só a novela chata das ruínas dos nossos estádios, começo, a propósito, mais uma vez, a crônica desse domingo com Nelson Rodrigues (sempre é bom cultivar os mestres) e, já advirto: a terminarei com Nelson Rodrigues. É que além do tema que se vai tratar aqui – já antevisto no título – para o qual o maior cronista de futebol de todos os tempos desde o paraíso, me deu o mote, acordei na manhã de hoje com um apologozinho na cabeça sobre a arte de escrever. Mesmo escrever sobre esportes. A historieta é a seguinte:
Um aluno do curso de Letras de uma dessas universidades brasileiras. Um simples e reles aluno – entre os milhares que existem espalhados pelos bancos escolares ditos superiores e que têm como utopia envergar a profissão de Machado de Assis – percebeu que a universidade não estava contribuindo muito com o aprendizado que fora buscar para o seu propósito profissional. Assim, num desses ambientes de mesa de bar onde às vezes se aprende mais do que se espera, resolveu ele, o nosso aluno de Letras, perguntar a um velho bêbado que se encontrava no recinto e que todos reputavam como ótimo escritor, o seguinte: – “Então, como o senhor definiria o que é uma crônica?”. O velho senhor saiu-se com essa: – “Meu filho, uma crônica é aquilo que começa com uma palavra e termina com um ponto”.
O curioso aluno ainda objetou: – “Mas, todo texto começa com uma palavra e termina com um ponto”. – “Certo – respondeu o velho -, mas a crônica é aquilo que está no meio, entre a primeira palavra e o ponto final”, concluiu sentencioso. Justifico assim a crônica de hoje, que sai meio que imprensada entre parágrafos lapidares do velho Nelson Rodrigues sobre a genialidade e a burrice.
Comecemos com o registro literário e espirituoso da genialidade, nestes dois primeiros parágrafos do mestre, que aí seguem:
“Amigos, a única coisa indiscutível no mundo é o gênio. Não sei se me faço entender. Mas o gênio, por ser gênio, pode causar irritações e, até, ódios. (…) Um exemplo: – Rimbaud. Depois de ter escrito, dos quinze para os dezessete anos, a sua obra poética, Rimbaud só faltou assaltar chofer.
“Foi preso duzentas vezes e levado à delegacia mais próxima. Eis a primeira tendência do comissário: – “Metam esse moleque no xadrez!”. Dez minutos depois, a mesma autoridade berrava: – “Tirem esse moleque do xadrez!”. O prontidão perguntava: – “Por quê, Sua Majestade?”. O comissário dava pulos: – “Porque é um gênio, seu zebu!”. E, como gênio, tinha sempre razão, mesmo quando batia carteiras, ali no hall da Central do Brasil”.
Mas, e a burrice, digo eu? Bom, amigos, a burrice é o que não falta nesse caso ridículo, repetitivo e absurdo da falta de zelo pelos nossos equipamentos esportivos (leiam-se, aqui, os nossos estádios de futebol). Não vou nem comentar agora – para não estragar a crônica – minhas opiniões a respeito do tema. Vou aguardar o resultado da reunião que a Federação Paraibana de Futebol vai fazer com a imprensa para apresentar a sua visão da coisa, em entrevista coletiva marcada para a sexta-feira, momentos depois de ter escrito essa coluna, infelizmente. Prometo, portanto, voltar ao assunto na próxima semana.
Bom, mas falávamos há pouco da burrice. Então vamos concluir a coluna com uma observação preciosa de Nelson Rodrigues que cabe como uma luva nesse imbróglio ridículo sobre as condições atuais dos nossos estádios de futebol e, decorrente delas, sobre a possibilidade ou não de ser suspenso o campeonato paraibano de 2012.
“Vejam vocês: – o Sexo tem o seu Freud, a Economia tem o seu Marx. E ninguém observou o óbvio, ou seja: – que a burrice influi mais no comportamento humano do que o fator sexual, ou econômico ou outro qualquer. Daí se conclui que o gênio é um vencido e um miserando. Só o imbecil decide, só ele faz os costumes, as leis, as guerras, a moral e, numa palavra, as civilizações passadas, presentes e futuras. Ao passo que o gênio é o marginal das grandes decisões. Enquanto o gênio rosna de impotência e frustração, eis o cretino a fazer a história”.
Quem quiser – e souber – porque a burrice é fogo, que assuma a carapuça!
Coluna originalmente publicada, aos domingos, no jornal A União



