O cronista, o futebol e seus personagens

Todo escritor tem seus grandes personagens. Aquelas figuras que, como verdadeiros filhos, nasceram do seu prazer mas que também comungam – do nascimento até a morte – dos seus mais íntimos sofrimentos. Há quem diga que os filhos, uma vez concebidos, não deixam de nos preocupar nunca. É esse o caso do grande personagem para o grande escritor. Até porque no plano da arte, diferentemente do plano da vida, o personagem nunca morre. Ao contrário do pobre e mortal escritor que o concebeu. O criador retorna ao pó, a criatura cria asas e se eterniza.

 

Trago aqui essas reflexões sobre o ato de escrever porque acredito que o escritor – seja o mais laureado gênio da espécie, seja o pobre e desprotegido cronista de fim de semana -, vez por outra se sente abandonado do mundo, solitário, sem saída; alma alguma a lhe dar o ombro. É então que, tomado de pânico, ciente de que não há mais nada o que dizer, ele recorre a um dos seus caros personagens. Sim, porque os personagens têm sempre o que dizer; o escritor, não. Longe de ser grande escritor, bem entendido, tenho cá, porém, a minha Amélia Cassandra.

Dessa moça, os meus poucos leitores já ouviram falar. Certa vez, ela compareceu aqui nestas páginas com pompa e tudo. Mas, apresentemo-la outra vez para os que não a conheceram. Amélia Cassandra é uma senhorita que trabalha, prestando serviços domésticos, aqui na minha casa. Jovem humilde, mas inteligente; compenetrada no trabalho, alegre e brincalhona, Cassandra veio pedir emprego oriunda de uma cidade do interior do Estado. Disse que veio para a capital por causa de uma questão amorosa. Um rapaz rico e poderoso da sua cidade tomou-se de amores por ela e até chegaram a namorar publicamente, para a incredulidade da humilde moça. O nome dele era Apolo.

Eis que um dia o rapaz descobriu, entre vários, mais um precioso atributo em Cassandra. E, por imerecida desdita, esse foi o motivo da desilusão amorosa entre os dois. A moça possuía o inexplicável dom da predição. Ou seja, tinha infinitamente mais desenvolvido, esmeradamente mais acurado, o chamado sexto sentido das mulheres. Adivinhava tudo o que estava por vir. Sabia, por exemplo, com riqueza de detalhes, com quem e em que circunstâncias seu amado Apolo tinha passado a noite anterior. Prevê-se já, portanto, o quanto era embaraçoso para os dois, esse inusitado atributo de Cassandra.

A princípio tolerados, seus efeitos foram paulatinamente minando a felicidade dos pombinhos. E eis que houve o inevitável rompimento. É aqui que bate Cassandra em minha porta. Veio pedir emprego e aqui ficou. Soube, durante a rápida entrevista que fiz com ela, para a efetivação de sua contratação, que a jovem era apaixonada por futebol. Confesso que esse foi, de minha parte, o principal critério que a fez conquistar a vaga. Eu acabava de ganhar, afinal, uma interlocutora a altura para as minhas discussões sobre o nobre esporte bretão.

Hoje, por exemplo, as nossas discussões futebolísticas são de vários níveis. Às vezes, sobe aos píncaros das conjecturas filosóficas. Às vezes, desce ao rés do chão do mais baixo conteúdo elucidativo. Não sei, com efeito, em qual destes níveis se insere o papo que tivemos há quinze dias sobre a tese que ela me trouxe a respeito do campeonato paraibano de 2012.

O que posso lhes dizer, entretanto, é que o papo daquela ocasião entre eu e Cassandra serviu de base para a coluna que escrevi no domingo passado (http://meufutblog.blogspot.com/) sobre um filme que se prenuncia insosso, chato e de final previsível: o tal campeonato paraibano de 2012. A julgar pela baixaria que houve ontem na reunião entre os dirigentes dos clubes, a Promotoria do Cidadão e a Federação Paraibana de Futebol, para a definição da realização ou não do certame deste ano (os principais estádios do Estado estão vetados para a prática do futebol), o campeonato estadual de 2012 vai ser mesmo o filme horroroso que Cassandra previu. Com final horrível e com personagens piores ainda; salvando-se a cara dos jogadores, claro, que não têm nada a ver com esse script de terceira categoria. Acho, entretanto, que são os personagens que salvarão as minhas colunas daqui por adiante. Bom domingo!

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