O futebol e o descobrimento do Brasil

Caro torcedor. Aqui vai um desbragado desabafo. A derrota vergonhosa do Santos para o Barcelona na final do Mundial de Clubes da Fifa, no final do não passado, causou em mim certo impacto.

Uma partida em que apenas um time jogou (o Barcelona) e o outro (o Santos) apenas assistiu ao jogo num ato de reverência absurda, teve para mim um significado complexo. Principalmente porque após o jogo, nossos colegas da imprensa esportiva passaram a ver no time europeu a prática de um futebol único, artístico, exemplar, esquecendo-se todos que aquilo nada mais é do que o nosso bom, costumeiro e mágico futebol brasileiro. Como sempre, importando de nós com a força da grana que ergue e destrói coisas belas.

Por isso, anotem. O Brasil foi descoberto em 29 de junho de 1958. Fica evidente aqui que não falo daquele “descobrimento” oficial na acepção histórica do termo. Falo, isto sim, de um outro tipo de descobrimento do nosso país: aquele que o futebol possibilitou a nós brasileiros nesse seu pouco mais de um século de existência por essas paragens tropicais. Situamos o fato – e o fenômeno cultural dele derivado – na data já arrolada porque foi naquele dia que o Brasil tornou-se campeão mundial de futebol pela primeira vez.

Tomemos, então, a propósito da inserção do futebol na vida nacional, dois quadros pintados por dois de nossos melhores cronistas esportivos, Milton Pedrosa e Jacinto de Thormes, respectivamente: “Dificilmente se descobrirá um brasileiro que, ao menos uma vez na vida, não haja metido o pé numa bola, e que ficasse imune ao sortilégio do jogo nacional. Industrial de fama, médico de prestígio, intelectual ou operário, soldado ou civil, clérigo ou leigo, cada um tem de confessar sua passagem pelos bancos dessa fascinante escola pública que é a pelada”. – “Tenho 30 anos de bola, chutando e olhando. Na falta de bola, chutei lata de goiabada, pedaço de osso, peruca de mulher, chapinha de cerveja e penico de metal”.

As afirmações acima, como se vê, dão a dimensão exata do que representa para o povo brasileiro a prática do futebol e também como é óbvia a assertiva de que é impossível compreender o Brasil e, por conseqüência, a sua cultura, sem considerarmos nela a inserção deste esporte como um dos seus elementos configuradores.

Vejamos aqui, portanto – porque pertinente -, a relação do futebol com a questão da nossa identidade cultural. É que me acosto à tese, defendida em brilhante ensaio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, de que a nossa seleção de futebol representa, nos gramados do mundo afora, a soma das nossas virtudes e defeitos enquanto nação. Analise-se, a propósito, os cinco campeonatos mundiais ganhos pelo Brasil e se entenderá o que estou dizendo.

A vitória da copa de 58 na Suécia, que ganhamos sobrando em campo numa final em que goleamos os donos da casa por 5 a 2, começou com um trauma: a dramática perda do título em pleno Maracanã para os uruguaios oito anos antes. Tal infortúnio, entretanto, foi fundamental para compreendermos posteriormente algumas nuances que permeiam o futebol na sua relação com a cultura. Nuances estas que melhor assimiladas podem nos ajudar a responder uma questão que mais do que nunca (depois da conquista de cinco copas do mundo) se impõe a nós brasileiros: por que somos os melhores do mundo em futebol? Por que diferentemente de outros campos em que acumulamos retumbantes fracassos – construção da cidadania, distribuição de renda, erradicação da miséria, combate sistemático à violência e à corrupção etc -, no futebol nos impomos ao mundo como exemplo de excelência?
Arrisquemos, à guisa de contribuição neste debate, digamos, sociológico, sobre o futebol, algumas tentativas de explicação. Já defendi, em artigo escrito para a série Brasil 500 anos de história, a mim solicitado por outro jornal, que o processo histórico de miscigenação do nosso gentio encontrou no futebol um dos espaços ideais para a afirmação cultural do nosso povo.

A mistura de raças em que se juntaram o índio telúrico e inocente, o branco europeu (racional e colonizador) e o negro africano e escravo possibilitou a nós brasileiros, no âmbito do futebol, forjarmos um estilo único e inconfundível de praticar este esporte. E a história das copas, insofismável, atesta: é esta a nossa grande contribuição à cultura universal. O Santos, coitado, ainda não entendeu isso.

Coluna originalmente publicada, aos domingos, no jornal A União

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